
M. Night Shyamalan, após a sequência formada por O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais, foi considerado o próximo Steven Spielberg. Não pela similaridade temática de suas obras, mas pela capacidade de fazer um cinema popular de enorme alcance e, ao mesmo tempo, tão individual e autoral. Trago essa comparação porque, mais de 20 anos depois, mesmo após sua queda vertiginosa perante o público geral e a crítica estadunidense (eu sou apaixonado pelo cinema de Shyamalan), seu cinema, que tanto se baseia na fé, ecoa bastante em Dia D, o novo longa-metragem de Steven Spielberg.
No longa, o mundo entra em pânico após um evento inexplicável ser transmitido ao vivo pela televisão. Fenômenos estranhos ao redor do planeta parecem estar cada vez mais próximos, enquanto segredos militares são expostos, desencadeando uma crise global jamais vista. Agora, a inteligência alienígena torna-se cada vez mais evidente, e estudiosos, cientistas, autoridades e civis precisam aprender a lidar com a ideia de que a humanidade nunca esteve sozinha.
Seu último longa-metragem, Os Fabelmans, mostrou Spielberg em sua fase mais pessoal, realizando uma autobiografia às avessas ao retratar o nascimento de seu amor pela arte do cinema e como isso se entrelaça com sua vivência e sua religião judaica. O feixe de luz do projetor nas mãos do jovem Spielberg (Sammy Fabelman no filme) surge como uma bênção divina, dando início à sua obsessão por fazer cinema.

Dia D, por outro lado, é talvez o filme em que Spielberg mais elabora sobre religião. Trata-se de uma obra que une diversos gêneros que dialogam com o misticismo, a ficção científica e a fé, colocando todos lado a lado. Um filme depende da crença do espectador de que aquilo pode acontecer; um filme de ação ou um musical exige que se acredite na palpabilidade daqueles acontecimentos, por mais artificiais que sejam.
O autor coloca em tela, em pé de igualdade, um artefato alienígena e um crucifixo. Isso, por si só, traz o debate à tona de forma poderosa. Dia D é, portanto, um filme fantasioso que não tenta justificar nem racionalizar sua fantasia; ele acredita nela e quer que você acredite também. Ele pede a sua fé.
É nesse momento que entram os ecos de Sinais, de Shyamalan. Graham Hess, personagem de Mel Gibson, é um homem de fé que, castigado pelo mundo, perde suas crenças e precisa reconquistá-las. No longa de Spielberg, o diretor enxerga, nesse mundo à beira do apocalipse, uma América onde todos são Graham Hess, e cabe à verdade escondida trazer de volta essa fé.
Uma realidade em que a próxima evolução da humanidade acontece por meio do exercício da empatia, da devoção na arte e no próximo, da crença na ficção.
Palmas
Apesar de tudo o que foi dito até aqui, Dia D não é apenas um filme tematicamente profundo, mas também um excepcional trabalho técnico. O ritmo é ótimo, mesmo tropeçando no último terço. Com ótimas sequências de ação, majoritariamente perseguições de carro, e os toques de misticismo espalhados pela narrativa, Spielberg consegue inserir elementos de fantasia quase infantis dentro de uma obra que transita livremente entre gêneros. Há momentos que beiram Doctor Who. Sua câmera é livre, sua movimentação é fluida e os diversos planos sequência são, de fato, impressionantes.
Finalmente, sei que estamos mais uma vez diante de uma narrativa que coloca os Estados Unidos no centro do mundo e apresenta alienígenas bípedes relativamente convencionais. Ainda assim, a força de uma obra que acredita na fantasia, que entende a necessidade da intensidade emocional de seus atores, que sintetiza momentos muito característicos do cinema dos anos 2000 e que, sobretudo, entrega um excelente filme de ação de forma concisa, faz com que reste apenas uma reação: bater palmas para o gênio Steven Spielberg.















