Revisitando O Hobbit: a aventura que a crítica nunca abraçou

Às vezes, uma obra merece ser vista outra vez, sobretudo quando a memória já não reflete com precisão a qualidade do produto final
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O filme estreou em 2012 com grande expectativa por parte do público e da crítica, mas acabou sendo recebido com frustração por ambos os grupos / Foto: Divulgação

Em Cannes, durante um bate-papo com fãs após receber uma Palma de Ouro honorária, Peter Jackson protagonizou um dos momentos mais divertidos do Festival. O vencedor do Oscar por O Senhor dos Anéis contou que foi abordado por uma pessoa que o reconheceu pelo trabalho na trilogia original. O admirador disse ser um grande fã de seus filmes e lamentou que O Hobbit tivesse sido entregue a outro diretor, pois tinha certeza de que Jackson faria um trabalho melhor. A plateia caiu na gargalhada quando o cineasta respondeu: “Pois é, aquela outra trilogia é uma merda”.

Apesar da piada, e dos inacreditáveis 14 anos desde o lançamento de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, revisitar a trilogia hoje não é uma experiência tão desagradável quanto a memória coletiva parece sugerir. Evidentemente, não há a mesma grandiosidade ou o mesmo impacto emocional de A Sociedade do Anel, por exemplo, mas há diversão suficiente para perceber que Jackson estava tentando realizar algo diferente. Menos preocupado com a solenidade épica que marcou sua obra anterior, o diretor buscava uma aventura mais leve, fantasiosa e assumidamente lúdica.

A produção, aliás, nasceu cercada por turbulências. Depois de anos de especulações e da confirmação de que Guillermo del Toro comandaria o projeto, Jackson acabou assumindo a direção dos dois filmes originalmente planejados. No meio do caminho, a adaptação virou uma trilogia, e o restante da história é conhecido: a crítica torceu o nariz, a Academia praticamente ignorou os longas e, embora tenham arrecadado bilhões de dólares ao redor do mundo, os filmes nunca conquistaram o mesmo prestígio da trilogia anterior. Ainda assim, esse desprezo generalizado sempre me pareceu um mistério.

Baseado no livro de J.R.R. Tolkien, Uma Jornada Inesperada é, acima de tudo, um exercício de cinema de aventura. Mesmo revestido de um tom épico, raramente se leva a sério. As interpretações, com exceção de Martin Freeman e Ian McKellen, flertam frequentemente com o exagero, enquanto o roteiro constrói situações que existem menos para desenvolver conflitos complexos e mais para justificar o espetáculo imaginado por Jackson. É um parque de diversões cinematográfico que não tem vergonha de ser exatamente isso.

Ao longo de quase três horas, acompanhamos personagens que atravessam paisagens, encontram figuras excêntricas e seguem para a próxima parada da jornada. A estrutura é quase episódica, como uma coleção de aventuras interligadas. Assistido em uma boa televisão e com um sistema de som adequado, torna-se difícil permanecer indiferente ao entusiasmo que o filme tenta transmitir. Poucas superproduções recentes abraçam tão claramente a ideia da aventura pela aventura.

E Jackson sabe transformar essas paradas em grandes momentos de espetáculo. A fuga da caverna dos goblins, o encontro de Bilbo com Gollum em “Charadas no Escuro” e a sequência final sobre as árvores em chamas são exemplos claros disso. São cenas distintas entre si, cada uma explorando uma emoção diferente, mas todas construídas com uma energia contagiante. A montagem e a trilha sonora trabalham juntas para criar uma constante sensação de movimento, como uma montanha-russa que se recusa a desacelerar.

Muito desse encanto também passa pelas atuações de Freeman e McKellen. Como Bilbo e Gandalf, os dois funcionam como âncoras emocionais da narrativa. Ao redor deles existe um universo de criaturas fantásticas, batalhas e ameaças, mas o coração da história permanece simples: trata-se de uma aventura sobre descoberta, amizade e coragem. Nesse sentido, O Hobbit dialoga muito mais diretamente com o espírito do livro original do que com a gravidade quase apocalíptica de O Senhor dos Anéis, cuja narrativa girava em torno da possibilidade concreta do fim do mundo.

Talvez seja por isso que o filme continue funcionando. Assim como aprendemos em O Mágico de Oz, a maior de todas as aventuras muitas vezes é encontrar o caminho de volta para casa. Bilbo Bolseiro parte justamente porque já possui um lar; sua jornada não nasce da falta, mas da escolha de abandonar o conforto para ajudar treze anões a recuperar a Montanha Solitária. Quase um século depois da publicação do livro de Tolkien, essa história continua convidando o público para mundos impossíveis, lembrando que poucas artes conseguem despertar o senso de maravilhamento com tanta força quanto o cinema.

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