Supergirl voa alto, mas não encontra o próprio rumo

Craig Gillespie tenta equilibrar temas demais, enquanto sua protagonista é esmagada pelo peso das discussões do novo universo DC de James Gunn
Milly Alcock vive a protagonista no novo filme da DC / Foto: Divulgação

Havia todo um burburinho sobre a dificuldade que James Gunn teria ao iniciar o novo universo DC no cinema com Superman: a missão de resgatar a bondade do herói, entregar um filme colorido e ensolarado e, além disso, atualizar tematicamente o personagem para o mundo de hoje. O diretor conseguiu realizar boa parte dessas tarefas com desenvoltura, construindo algo que parece uma mistura de Super Amigos com os conflitos geopolíticos contemporâneos – e isso funcionou.

O que não se comentou tanto foi a dificuldade que Supergirl enfrentaria ao se tornar o segundo passo desse universo. O filme precisava trazer a heroína para o presente por meio de temas atuais, sem abandonar o drama que define sua personagem, ao mesmo tempo em que deveria seguir uma cartilha narrativa e visual estabelecida por Gunn em Superman. No fim das contas, essa missão se mostrou pesada demais.

Kara Zor-El (Milly Alcock) vivenciou e sobreviveu ao colapso de Krypton aos 14 anos. Agora, aos 21, ainda carrega as marcas desse trauma. Ao longo da história, ela cruza o caminho de Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma jovem alienígena determinada a se vingar do mercenário Krem (Matthias Schoenaerts), responsável pela morte de seu pai. Inicialmente, Kara se recusa a participar dessa jornada e rejeita a ideia de assumir o papel de algoz. Porém, quando Krem ameaça alguém próximo à heroína, a situação muda completamente.

Nos últimos anos, tornou-se evidente que vivemos uma era em que boa parte do debate sobre cinema acontece pelas lentes das redes sociais e da interpretação identitária. A experiência de assistir a um filme passou a ser cada vez mais personalizada, como se cada personagem precisasse representar um grupo inteiro. Muitas vezes, espera-se que uma protagonista feminina represente todas as mulheres; que um vilão simbolize os grandes antagonistas do nosso tempo. Em The Batman, por exemplo, os criminosos dialogavam com figuras como os incels e influenciadores tóxicos da internet. Em Superman, Lex Luthor funciona como uma caricatura do bilionário das Big Techs. Já em Supergirl, os antagonistas assumem características associadas aos discursos masculinistas conhecidos como “red pills”, enquanto as protagonistas são construídas a partir de uma perspectiva próxima ao feminismo liberal.

Essa abordagem não é um problema por si só. Em muitos casos, ela produz excelentes resultados. Gosto, por exemplo, da maneira como The Batman discute o impacto que o símbolo do morcego provoca sobre quem o observa, ou de como Superman transforma Clark Kent em uma resposta à xenofobia e ao poder concentrado nas mãos de um bilionário. O problema, em Supergirl, não está na presença desses temas, mas na quantidade deles e na forma como disputam espaço com aquilo que deveria ser o coração da narrativa.

A história de Kara funciona melhor quando olha para sua solidão, para o trauma de ter sobrevivido à destruição de Krypton e para o sentimento permanente de não pertencimento. Trata-se de uma personagem cuja força sempre esteve ligada às cicatrizes que carrega, não necessariamente ao papel de símbolo de uma causa. Por isso, o peso de transformá-la também em um emblema da luta contra o machismo e os discursos masculinistas contemporâneos acaba sobrecarregando um filme que talvez funcionasse melhor como uma aventura mais íntima, emocional e despretensiosa.

Ao tentar equilibrar todas essas camadas, o diretor Craig Gillespie precisa conciliar diferentes discursos enquanto ainda segue a identidade visual inaugurada por James Gunn. O diretor tenta costurar referências ao faroeste, ao cinema de ação, à comédia e até ao universo de Mad Max. O resultado, porém, fica aquém da ambição proposta. Em vez de formar um conjunto coeso, essas influências parecem competir entre si.

Essa falta de unidade também aparece na utilização de Lobo. O personagem parece menos uma necessidade dramática da história e mais uma peça posicionada para preparar futuros capítulos desse universo compartilhado. Sua presença quebra o tom da narrativa justamente quando o filme deveria aprofundar a jornada emocional de Kara, provocando uma sensação constante de deslocamento.

No fim, Milly Alcock entrega uma Supergirl carismática e bastante convincente. Sua interpretação transmite vulnerabilidade e força na medida certa. Ainda assim, o filme se torna uma grande colcha de retalhos, com um ritmo irregular e uma quantidade excessiva de ideias disputando atenção. Falta unidade para que todas essas peças formem um todo realmente memorável.

Agora resta aguardar as discussões inevitáveis no X, antigo Twitter. Muito provavelmente elas serão dominadas, de um lado, pela misoginia de parte dos fãs que rejeitarem o filme e, de outro, por acusações de machismo dirigidas a qualquer crítica feita à obra. Nesse cenário, desaparece o espaço para uma leitura mais profunda do longa, que acaba reduzido a uma simples moeda de troca em uma disputa de narrativas travada nas redes sociais.

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