Natal Amargo mostra que Almodóvar, mesmo em seus dias menos inspirados, nunca é demais

Mesmo longe de suas melhores obras, o longa reafirma a força de um dos diretores mais importantes do cinema contemporâneo
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Depois de um breve período em Hollywood e do lançamento de seu primeiro filme em língua inglesa, Um Quarto ao Lado (2024), Pedro Almodóvar volta às suas origens em um longa que brinca com a metalinguagem e a autoficção. Um dos diretores mais prolíficos da atualidade, o espanhol continua presenteando os cinéfilos com quase um filme por ano, e, inevitavelmente, com alguns deslizes. Infelizmente, Natal Amargo é um deles.

Os elementos que identificam imediatamente um filme de Almodóvar estão todos aqui: as cores vibrantes, o vermelho dominando a composição das cenas e, claro, a inspiração na própria vida. O protagonista, Raúl, é um diretor de cinema que escreve seu próximo roteiro e busca inspiração em um acontecimento vivido por sua agente. Paralelamente, Elsa, personagem principal da história criada por Raúl e também diretora de cinema, passa a reproduzir as mesmas ações de seu criador. O filme alterna constantemente entre ficção e realidade, deixando claro que Raúl funciona como um alter ego do próprio Almodóvar.

As atuações são inegavelmente excelentes, e o roteiro explora ao máximo temas como melancolia, traição, luto, problemas de saúde e o bloqueio criativo de um artista. Tudo isso embalado pelo clássico melodrama da filmografia do diretor e por belas imagens das Ilhas Canárias. Ainda assim, o desfecho anticlimático pode frustrar parte do público, assim como alguns caminhos narrativos deixados em aberto, possivelmente de forma intencional, como um reflexo do roteiro inacabado escrito pelo protagonista.

Ao final, fica a sensação de já termos visto esse filme antes, e, de certa forma, vimos mesmo. Natal Amargo parece tentar revisitar Dor e Glória, mas sem alcançar o mesmo impacto e carregando excessivamente na dramaticidade. A proposta metalinguística também inevitavelmente remete a Adaptação, de Spike Jonze, que desenvolve ideia semelhante de maneira mais inventiva. Ainda assim, vale celebrar a permanência de um cineasta tão singular e de identidade autoral tão marcante. Mesmo distante de suas melhores obras, Natal Amargo continua sendo um filme que merece ser visto.

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