A Odisseia das obsessões de Christopher Nolan

O diretor retorna à gênese da narrativa ocidental para transformar um épico grego em uma reflexão sobre as questões que atravessam sua filmografia
O filme é protagonizado por Matt Damon / Foto: Divulgação

Batman – O Cavaleiro das Trevas foi, por muito tempo, o meu filme favorito. Eu estava começando a descobrir o cinema quando fui hipnotizado pela figura anárquica do Coringa de Heath Ledger. Era uma experiência completamente nova, marcada pela sensação de estar diante de algo grandioso e diferente. Com o passar dos anos, porém, enquanto estudava cinema e ampliava minhas referências, fui deixando para trás não apenas aquela Trilogia do Batman, mas também o cinema de Christopher Nolan como um todo.

Seus filmes construídos como grandes quebra-cabeças deixaram de me atrair; seus mundos gigantescos, dominados por tons cinzentos e dilemas existenciais, começaram a parecer distantes demais. De certa forma, Nolan ajudou a moldar uma geração de blockbusters excessivamente preocupada com o cinismo, uma influência que ainda reverbera no trabalho de outros diretores, como Denis Villeneuve. Foi justamente por isso que Oppenheimer acabou sendo uma surpresa: ao revisitar sua obra, consegui enxergar com mais clareza o toque autoral de Nolan em seu auge.

A teatralidade do cineasta, misturada à obsessão científica, funciona perfeitamente dentro daquele drama verborrágico de homens brilhantes debatendo ideias enquanto tentam compreender o peso das próprias descobertas. É um cinema que às vezes sacrifica a naturalidade em favor da grandiosidade, mas que encontra força justamente nessa construção quase operística. Talvez por isso tenha sido tão interessante descobrir que o próximo passo de Nolan seria adaptar uma das obras mais antigas da literatura ocidental e uma das narrativas preservadas mais importantes da humanidade.

A escolha parecia improvável. O gigantismo do diretor, somado à sua forte relação com a teatralidade, combina naturalmente com o universo de Homero. O verdadeiro desafio estava em outro lugar: como um cineasta conhecido por transformar conceitos extraordinários em experiências realistas lidaria com a fantasia da mitologia grega? Havia o risco de que sua necessidade de tornar tudo crível retirasse parte da magia de um épico povoado por deuses, monstros e criaturas fantásticas.

A surpresa é que Nolan encontra justamente nesse conflito a força do filme.

Uma das histórias mais antigas da literatura ocidental finalmente ganha uma adaptação cinematográfica pelas mãos de Christopher Nolan. A Odisseia é um poema épico atribuído a Homero que acompanha as aventuras de Odisseu (Matt Damon) em sua jornada de retorno para casa após a Guerra de Troia. Enquanto enfrenta criaturas míticas e a ira dos deuses, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) aguarda pelo seu retorno.

A história, por si só, oferece todos os elementos para um grande espetáculo de ação. As dificuldades enfrentadas por Odisseu e seus companheiros poderiam facilmente transformar o filme em uma sucessão de gigantescas sequências de aventura. Nolan, porém, encontra sua maior força justamente nos momentos de diálogo e memória. Na obra original, boa parte da trajetória do herói é contada em um longo flashback pelo próprio Odisseu. O filme amplia essa ideia ao construir diferentes versões sobre quem ele é.

Existe o Odisseu celebrado pelo aedo interpretado por Travis Scott, responsável por reforçar o caráter mítico do guerreiro que venceu Troia. Existe o retrato mais íntimo apresentado por Eumeu a Telêmaco, revelando o homem por trás da lenda. E existe, finalmente, o próprio Odisseu narrando sua história para Calipso, confrontando as consequências das próprias escolhas.

É nesse movimento de construção e desconstrução da figura heroica que Nolan encontra o principal tema do filme. Assim como em Oppenheimer, o diretor retorna ao interesse pelo homem que carrega o mundo nas costas, mas que também precisa lidar com a culpa pelas consequências de suas ações. Odisseu não é apenas o guerreiro que venceu uma guerra; é também aquele que rompeu leis divinas e precisa conviver com o peso dessa transgressão.

A montagem continua sendo um dos pontos mais frágeis do cinema de Nolan. Existe uma dificuldade recorrente em construir uma continuidade espacial entre algumas cenas, algo que se torna ainda mais perceptível em uma obra tão grandiosa. A necessidade de reduzir a duração inicialmente planejada para o IMAX também parece afetar determinados momentos, deixando alguns ambientes pouco desenvolvidos e criando pequenos saltos narrativos.

Essa pressa pesa principalmente no ato final. Ainda assim, as grandes sequências de ação são fortes o suficiente para sustentar as quase três horas de projeção. Nolan encontra uma maneira curiosa de lidar com a fantasia: mantém seu tradicional realismo, mas entrega, ao mesmo tempo, o filme mais fantástico de toda a sua carreira.

Esse equilíbrio também se deve ao elenco. Matt Damon, Robert Pattinson e Anne Hathaway entregam atuações intensas, capazes de transformar conflitos mitológicos em dramas pessoais. Tom Holland, infelizmente, parece menos preparado para acompanhar a carga emocional exigida pelo material. A fotografia de Hoyte van Hoytema, por outro lado, é impressionante ao trabalhar contrastes entre cavernas, salões e campos iluminados por pouca luz, mantendo clareza mesmo durante batalhas conduzidas apenas pelo brilho das tochas.

No fim das contas, é bonito ver Nolan se entregando às próprias obsessões sem medo de abraçar o tamanho da própria ambição. Com ciclopes, bruxas, deuses e batalhas épicas, o diretor utiliza o enorme palco que conquistou para realizar um épico grego que ainda carrega suas marcas autorais. A Odisseia é, até aqui, o filme de Christopher Nolan mais bem resolvido tematicamente.

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