Rock e reacionarismo: Como a cultura roqueira virou celeiro da extrema direita?

Texto de Tiago Amora, cartunista e ilustrador cearense desde 1989
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O rock sempre foi transgressor por natureza. Quando ouvi meus primeiros discos, entendi que havia ali um espírito de oposição ao status quo. Desde o início, o gênero esteve associado à rebeldia, à contestação e à ruptura de padrões. Mas por que parte do universo do rock parece ter se tornado tão careta? Conservador, em muitos casos cristão e alinhado à direita? Tenho algumas teorias para contribuir com esse debate.

O declínio da hegemonia cultural

O rock surgiu nos anos 1950 e atravessou diferentes transformações ao longo das décadas. Elvis Presley revolucionou o comportamento masculino, influenciando a forma de vestir, de se portar e de consumir cultura. Os Beatles redefiniram a música pop e consolidaram uma nova identidade para o rock, enquanto Rolling Stones, Iron Maiden, Kiss, Guns N’ Roses, Nirvana e tantas outras bandas ajudaram a moldar gerações. Nos anos 1980 e 1990, os videoclipes e a MTV ampliaram ainda mais esse alcance.

Com o tempo, porém, as mudanças no consumo de mídia, a fragmentação do mercado cultural e o surgimento de novos gêneros musicais reduziram a centralidade do rock. O que antes ocupava o centro da cultura pop passou a dividir espaço com inúmeras outras manifestações culturais. Ao mesmo tempo, a popularização do gênero acabou domesticando parte de seu discurso contestador.

A desconexão com a política

O rock nem sempre falou explicitamente sobre política, mas frequentemente esteve associado à contestação de normas sociais, culturais e políticas. Basta observar bandas como Rage Against the Machine, cujo próprio nome significa “Revolta Contra a Máquina”, ou músicas como Another Brick in the Wall, do Pink Floyd.

Ironicamente, Roger Waters passou a ser vaiado por parte do público justamente por continuar fazendo aquilo que sempre marcou sua carreira: falar sobre política.

Outro episódio emblemático ocorreu quando o Dead Kennedys veio ao Brasil. O ilustrador Cristiano Soares produziu um cartaz inspirado nas próprias letras da banda, adaptando-as à realidade brasileira. A arte retratava uma família bolsonarista, com rostos pintados de palhaço, camisetas da Seleção Brasileira e fuzis nas mãos. A reação foi tão intensa que o cartaz precisou ser retirado das redes sociais e substituído por outro.

O cenário brasileiro

Esse movimento não aconteceu apenas entre bandas estrangeiras.

No Brasil, Lobão, que chegou a defender publicamente a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva no programa do Faustão, tornou-se próximo de Olavo de Carvalho, considerado um dos principais ideólogos da nova direita brasileira.

O Ultraje a Rigor, que nos anos 1980 satirizava problemas nacionais em músicas como Inútil, também ilustra essa mudança. Hoje, Roger Moreira se posiciona ao lado de figuras da direita e apoiou diretamente Jair Bolsonaro.

Digão, atual vocalista dos Raimundos, também já publicou diversas opiniões conservadoras em seu perfil no X. Da mesma forma, parte dos motoclubes, tradicionalmente compostos por homens mais velhos e identificados com a cultura do rock, aderiu às motociatas e aos movimentos de apoio ao bolsonarismo.

Desinformação como projeto

Durante décadas, o rock foi identificado com a contracultura e a oposição ao establishment. No entanto, parte de seu público passou a enxergar a chamada cultura “woke”, termo usado para se referir à conscientização sobre questões de justiça social, racial e de gênero, como a nova força hegemônica da sociedade.

Nesse contexto, pautas ligadas aos direitos humanos, ao feminismo, ao movimento LGBTQIA+ e ao combate ao racismo passaram a ser percebidas por muitos como símbolos dessa nova hegemonia cultural. Isso abriu espaço para que discursos conservadores e de extrema direita encontrassem receptividade entre uma parcela significativa desse público.

Outro fator importante é que muitos roqueiros formados culturalmente nas décadas de 1980 e 1990 sempre demonstraram interesse por teorias da conspiração, um terreno fértil para campanhas de desinformação e para movimentos políticos que utilizam esse tipo de narrativa para mobilizar seguidores.

Em resumo

O velho roqueiro dos anos 1980 e 1990 viu o estilo de vida que ajudou a construir perder protagonismo cultural. Enquanto as novas gerações passaram a consumir trap, funk, pop e influenciadores digitais, o rock deixou de ocupar o centro das atenções.

Parte desse público interpretou essa perda de relevância como uma ameaça à própria identidade. O ressentimento gerado por esse processo acabou sendo canalizado por discursos conservadores e reacionários.

Isso não significa que o rock tenha se tornado um movimento de direita. Há inúmeros artistas e bandas progressistas até hoje. Mas ajuda a explicar por que uma parcela expressiva de seu público envelheceu politicamente em direção ao conservadorismo, mesmo pertencendo a um gênero musical que nasceu justamente para desafiar convenções.

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