Acampamento Miasma e o cinema como lugar do desejo

Jane Schoenbrun retorna às raízes de seu fascínio pela sétima arte para explorar sexo, morte e horror, investigando o olhar voyeurístico e o poder libertador daquilo que a sociedade insiste em marginalizar
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte consegue ir direto à veia da nossa relação com aquilo que é “proibido” / Foto: Divulgação

Sinto que uma das narrativas do cinema atual tem se concentrado cada vez mais em voltar às raízes e aos nascimentos de suas paixões pela arte e pelo cinema, olhando para a própria história e encarando a nostalgia com um brilho nos olhos, enquanto os grãos de película saltam na tela para trazer à tona o maravilhamento inicial desses autores. Os Fabelmans, Era Uma Vez em Hollywood, Licorice Pizza e a lista se alonga.

Quando Jane Schoenbrun trouxe, em seu filme anterior, Eu Vi o Brilho da TV, uma história onírica que unia seu amor por séries de televisão e seu despertar LGBTQAPN+ de uma forma nada convencional, consigo perceber como ela retorna agora a esse tema, voltando seu olhar para os filmes de terror.

Em Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, uma jovem cineasta queer (Hannah Einbinder) é contratada para comandar os bastidores de um aguardado reboot da franquia de terror conhecida por Camp Miasma. No entanto, desta vez, a direção espera conseguir centrar a história na icônica garota que aparece nas cenas finais do longa original, interpretada por Gillian Anderson. A busca por essa atriz, porém, ultrapassa os limites éticos estabelecidos pelos produtores de cinema, e o terror deixa de fazer parte apenas do roteiro, transformando toda a experiência das gravações em um grande episódio aterrorizante de mania psicossexual.

A indústria cinematográfica tem se tornado cada vez mais moralista, tirando o tesão da tela. Lembro claramente do ensaio viral do site Blood Knife, chamado Everyone Is Beautiful and No One Is Horny (https://bloodknife.com/everyone-beautiful-no-one-horny/), em tradução livre, “Todo Mundo é Gostoso, mas Ninguém Tem Tesão”, que discorre sobre como o cinema tem fetichizado os corpos dos super-heróis enquanto retira toda a libido que possa existir em suas obras.

Além disso, a ascensão de um certo conservadorismo entre a Geração Z é preocupante. Até hoje, algo seriamente discutido na internet é se deveria existir um botão para “pular cenas de sexo”, tendo como principal argumento a ideia de que nenhuma cena desse tipo é interessante para a história, entre vários outros questionamentos. Entendo esse debate se olharmos do ponto de vista do Male Gaze, já que, na história da arte, sempre tivemos o machismo enraizado na forma como os corpos femininos são filmados. Mas aqui parto de um ponto político: estamos vendo uma crescente do moralismo que quer marginalizar o sexo e o desejo.

É aqui que Jane encontra a vertente da raiz sobre a qual quer falar: o despertar do amor pelo cinema vindo do sexo, da matança e do tesão dos jovens nos filmes de terror, como Sexta-Feira 13 e Acampamento Sinistro. O primeiro deles, inclusive, pune personagens que demonstram desejo sexual, como se Jason Voorhees fosse um inquisidor dos bons costumes, enquanto a sobrevivente final deveria ser a figura mais pura e virgem da obra.

É interessante pensar nisso sob uma perspectiva de controle: como a sociedade tenta conter o pensamento sobre o sexo e confiná-lo ao espaço privado, até que aquilo que escapa dessa norma seja marginalizado.

Um bom exemplo é o que aconteceu com a discussão sobre educação sexual no Brasil, quando a direita distorceu o debate e o transformou no grande alvoroço que reverbera até hoje: a “Ideologia de Gênero”, mesmo depois de essa narrativa ter sido refutada inúmeras vezes.

Pode parecer um desvio em relação à obra, mas quero usar isso como argumento para construir a forma como Jane Schoenbrun traz, em sua descoberta sexual, uma subversão que coloca algo em primeiro plano: sim, o cinema é um dispositivo através do qual se veiculam o sexo e o tesão. Muitos teóricos, inclusive, estabelecem uma relação entre o cinema e o voyeurismo.

Então, quando Kris vê escondida aquela obra e tem seu primeiro contato com o sexo, a morte e o cinema, todas essas experiências ficam atreladas. É a partir daí que se constrói completamente a persona da diretora dentro da obra, e começamos a investigá-la.

Através dessa construção, chega também o momento de desconstruí-la. Jane então segue para outro prisma: o do olhar cínico que a arte moderna muitas vezes direciona ao cinema. O olhar para as obras de formas puramente acadêmicas e, às vezes, meramente identitárias.

É nesse momento que entra o catalisador dessa análise: a personagem de Gillian Anderson, Billy. O encontro entre esses personagens coloca em perspectiva o olhar frio com que observamos a arte.

É normal apontar para um filme antigo, claramente problemático, e dizer em alto e bom som quais são os seus problemas. Afinal, eles estão na tela, gritando na nossa cara. Mas, às vezes, talvez enxergar apenas o sangue e os fluidos seja a experiência mais prazerosa.

E olhar para a sétima arte por um lado que não seja apenas o da nostalgia dos tempos dourados e dos belos pores do sol, mas também pela matança dos filmes de terror dos anos 1980, quando tudo aquilo que é proibido rompe o espaço ao qual foi forçado a permanecer, conquistando, assim, sua própria liberdade.

É muito interessante perceber o ator trans Jack Haven como Little Death, pois, se a morte, o sexo, o sangue e o tesão são marginalizados, de maneiras diferentes, pessoas LGBTs — e, mais especificamente neste caso, pessoas trans — também ocupam esse lugar de marginalização.

Na hora de fazer um filme e expurgar todos os demônios que temos na cabeça, quando trazemos uma história para a tela, estamos matando personagens e vendo pessoas fazendo amor em película.

É bonito perceber que estamos voltando a sentir algo parecido nos filmes exibidos nas telonas, especialmente em produções de grande orçamento, ainda que sejam poucas. The Batman, de Matt Reeves, traz seu herói em uma roupa que chega a parecer quase uma vestimenta de bondage, olhando para a Mulher-Gato; ou quando Pecadores apresenta vampiros carregados de tensão sexual.

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte consegue aprofundar essa discussão e ir direto à veia do nosso relacionamento com esse “proibido”. É um filme incrível, e eu gostaria muito que fosse divulgado durante a temporada de premiações. Quem sabe, talvez, tivéssemos ali a primeira diretora trans indicada a uma grande premiação.

Acompanhe o Veredas e fique por dentro de tudo!

ASSUNTOS

Publicidade

Mais lidas

Publicidade

Confira também