Quem é Jones Manoel, influenciador comunista eleito deputado que quer participar da campanha digital de Lula

O historiador e influenciador foi eleito deputado federal por Pernambuco com 249.077 votos
Com mais de 2 milhões de seguidores, ele se colocou à disposição para ajudar na estratégia digital do petista / Foto: Instagram/Reprodução

O historiador e influenciador Jones Manoel (PSOL) foi eleito deputado federal por Pernambuco no domingo (4), com 249.077 votos. Ele terminou a disputa como o segundo candidato mais votado do estado, atrás de Pedro Campos (PSB), irmão do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), que foi derrotado na eleição para o governo pernambucano.

No Recife, Jones teve o melhor desempenho entre os candidatos à Câmara, ultrapassando a marca de 81 mil votos. Após o resultado, afirmou que a votação mostrou ser possível enfrentar as estruturas políticas tradicionais. “Superamos as máquinas do PSB e do PSD”, declarou.

Com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, Jones é um dos principais nomes da esquerda nas redes sociais. Depois de conquistar uma cadeira na Câmara, colocou-se à disposição para participar da campanha de segundo turno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), inclusive viajando pelo país para atuar em atividades de rua e na comunicação digital. A disposição chama atenção porque, apesar de apoiar o petista neste momento, o historiador já fez críticas a políticas que classifica como neoliberais adotadas pelos governos do PT.

“Eu já entrei em contato com figuras do PT Pernambuco e nacional, me colocando à disposição para a campanha. Estarei fazendo atividades de rua, mas me coloquei à disposição para ajudar também na estratégia de comunicação digital, para rodar o Brasil. Eu quero ajudar”, disse.

Na avaliação de Jones, a campanha de Lula precisa mudar a estratégia para o segundo turno, principalmente no ambiente digital. Ele também defende a inclusão de novos temas capazes de alcançar eleitores que não escolheram o petista na primeira etapa da eleição. Entre as propostas, cita a retomada da discussão sobre tarifa zero e passe livre.

“Uma das coisas, por exemplo, que eu acho que a campanha poderia adotar é retomar o debate sobre tarifa zero e passe livre. Em todas as capitais desse país, o transporte coletivo é uma tragédia, insuportável”, lamentou.

A trajetória do novo deputado começou na Favela da Borborema, no bairro de Boa Viagem, na zona sul do Recife. Filho de uma mulher que trabalhou no corte de cana e como empregada doméstica, Jones perdeu o pai, Luiz Manoel, assassinado quando ele tinha 11 anos. Pedreiro e líder comunitário, o pai não foi, porém, a principal influência para sua entrada na política.

O interesse surgiu por meio da cultura hip-hop. Jones costuma citar o impacto que teve ao ouvir referências a Malcolm X em uma música do rapper GOG e a Che Guevara em “Jesus Chorou”, dos Racionais MCs. A partir daí, passou a desenvolver sua militância dentro da própria comunidade, onde criou um curso popular voltado à preparação de jovens para o ingresso na universidade.

Segundo Jones, ele e outros dois amigos foram os primeiros moradores da favela a entrar em uma universidade pública. O futuro deputado cursou História na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), enquanto ampliava sua atuação política e sua presença nas redes sociais.

A eleição também reacendeu uma ambição que o historiador já havia manifestado publicamente. Logo após o resultado, publicou nas redes sociais: “Hoje fui eleito deputado federal. Amanhã serei presidente do Brasil!”. Questionado na terça-feira (6) sobre possíveis planos para disputar cargos maiores, porém, preferiu não antecipar projetos eleitorais.

“Meu desejo e minha vontade é a revolução brasileira. Eu tenho certeza que vou participar dela e estarei construindo os desdobramentos do próximo período que vai desaguar em 2030, e a gente vai, cada vez mais, falar certamente deles depois que acabar o segundo turno”, disparou.

Jones interpreta sua eleição como um sinal de que existe espaço para uma esquerda mais potente e revolucionária. Para ele, a vitória também expressa uma busca por renovação dentro do campo progressista. “Em nenhum momento a gente fez concessões, baixou as bandeiras para tentar se amoldar ao conservadorismo, ao senso comum, pelo contrário”.

Durante a campanha, o candidato apresentou um documento chamado “programa de mandato”, com propostas que vão além das atribuições normalmente apresentadas por candidatos ao Legislativo. Entre as bandeiras estão a descriminalização e a legalização regulada de substâncias, medidas de desencarceramento, anistia para pessoas presas sem violência por pequenos delitos ligados ao tráfico ou por crimes relacionados à sobrevivência, além da descriminalização do aborto como questão de saúde pública e do fim do ensino religioso nas escolas públicas.

“A gente fez um debate pedagógico, um debate construtivo com a consciência da classe trabalhadora, mostrando que as mentiras anticomunistas e os medos não tinham sentido”, enfatizou.

A projeção nacional de Jones também foi construída a partir de sua atuação no ambiente digital. A participação em podcasts e videocasts, principalmente em debates com representantes da direita, ampliou sua audiência. Entre os nomes que já enfrentou estão Kim Kataguiri (Missão), Wilker Leão (Novo) e Fernando Holiday (PL).

O deputado eleito atribui parte desse alcance à própria lógica das plataformas digitais. Segundo ele, os algoritmos favorecem conteúdos baseados em confronto, e a estratégia de participar desses embates serve para alcançar públicos que dificilmente seriam atingidos por meios tradicionais. “É uma tática de comunicação para chegar em mais pessoas”, seguiu.

A atuação de Jones também inclui críticas aos principais nomes da política pernambucana. Ele cobra, por exemplo, que a governadora Raquel Lyra (PSD), reeleita no primeiro turno, declare apoio a Lula na segunda etapa da disputa presidencial. A governadora manteve uma postura de neutralidade durante a campanha e, após a vitória, agradeceu ao presidente, mas não declarou voto.

Para Jones, a permanência de Lyra em uma posição neutra deixou de ser justificável depois do primeiro turno. “Não declarou posição eleitoral no primeiro turno, como parte de uma tática eleitoral para conseguir votos lulistas e bolsonaristas. Compreensível, mas estamos no segundo turno. A ideia de que em um dos estados mais importantes da federação a governadora reeleita vai ficar em cima do muro envergonha a história política de Pernambuco e o papel que nosso estado tem no cenário nacional”.

A eleição para a Câmara representa uma mudança significativa na trajetória eleitoral de Jones. Em 2022, ele concorreu ao governo de Pernambuco pelo PCB e recebeu 33.931 votos, o equivalente a 0,69% dos votos válidos. Na época, classificou o resultado como uma das melhores votações nacionais entre candidaturas da esquerda radical.

No ano seguinte, Jones foi expulso do PCB sob a acusação de promover uma “intensa campanha pública de difamação contra instâncias partidárias”. Ele contestou a decisão e argumentou que sua atuação vinha ampliando a presença do partido no debate público e entre setores da classe trabalhadora, algo que, segundo ele, desagradava à direção.

A candidatura à Câmara neste ano surgiu a partir de uma articulação com o PSOL, que incluiu o compromisso de apoiar a reeleição de Lula desde o primeiro turno. Agora eleito, Jones chega ao Congresso como uma das figuras mais conhecidas da esquerda radical nas redes sociais e com a intenção declarada de ampliar esse espaço também dentro da política institucional.

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