Você Não Vai Acreditar Quem Morreu faz gracinha, mas esquece de fazer rir

Entre divertir e ficar forçando o humor, o filme de Dallan Shovlin parece ter escolhido a segunda opção
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A obra começa bem, mas rapidamente perde o controle (Foto: Divulgação)

Existe uma diferença entre filmes engraçadinhos e filmes engraçados. Os primeiros parecem satisfeitos em fazer graça; os segundos sabem o que fazer com ela. Você Não Vai Acreditar Quem Morreu, de Dallan Shovlin, infelizmente fica com a primeira categoria. A história de uma família disfuncional que decide cometer um assalto durante o Natal oferece material para uma boa comédia, mas o trabalho irlandês demonstra estar mais preocupado em exibir suas piadinhas do que em encontrar humor na situação.

Essa necessidade de chamar atenção apresenta-se sobretudo na montagem, que tenta emular o estilo de Edgar Wright sem compreender muito bem o que há por trás dele. As músicas deslocadas, os cortes acelerados e a insistência em destacar objetos e ações banais sugerem uma inventividade que raramente se confirma.

Em vez de construir o ritmo da comédia, a edição frequentemente atrapalha a narrativa, escondendo informações importantes e enfatizando detalhes que não levam a lugar nenhum. Wright usa a montagem para fazer a piada funcionar; Shovlin parece acreditar que a montagem, por si só, já é a piada. É confuso, mas faz sentido (esse argumento).

O problema é que essa confusão entre forma e conteúdo contamina o longa inteiro. A dinâmica familiar, que deveria sustentar boa parte do humor, acaba sufocada por uma sucessão de situações que parecem existir apenas para manter a história em movimento. A premissa do assalto permitiria explorar a incompetência dos personagens, suas rivalidades e a dificuldade de agir em conjunto, mas falta ao roteiro evoluir essas possibilidades com alguma criatividade. Há agitação de sobra, mas poucas cenas que realmente ficam na memória.

Michelle Farley tenta compensar essa falta de inventividade com suas caras e bocas, encontrando algum humor no exagero das expressões. As cores também dão vida às imagens, e o filme tem ao menos uma identidade visual que o impede de parecer completamente genérico. São qualidades que ajudam a atravessar a sessão, mas não resolvem a sensação de que existe muito esforço para produzir pouco efeito.

No fim, Você Não Vai Acreditar Quem Morreu é engraçadinho quando poderia ser cômico. Tem uma premissa interessante, uma atriz que sabe extrair ironia do exagero e uma direção cheia de referências, mas falta justamente aquilo que não se resolve com cortes rápidos ou canções descontraídas: boas piadas, situações bem construídas e um senso de humor que não precise anunciar a todo instante que está tentando ser divertido. É tanta vontade de fazer comédia que o filme acaba esquecendo de ser engraçado.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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