A Ginasta olha para além do sonho olímpico

Filme de Charlotte Glynn explora os conflitos entre pai e filha diante de um destino incerto
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Britney Wheeler interpreta a jovem ginasta que precisa reconstruir seus planos após uma lesão (Foto: Divulgação)

A Ginasta, de Charlotte Glynn, exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, surpreende pela sensibilidade com que desenvolve uma história aparentemente simples. O filme acompanha uma jovem que sonha em chegar aos Jogos Olímpicos e o pai solo que dedica a vida a ajudá-la a realizar esse objetivo. Quando uma lesão ameaça encerrar a carreira da filha, os dois precisam lidar com a frustração de ver seus planos desmoronarem. Mais do que superar esse momento, porém, eles terão de descobrir quem são quando a ginástica deixa de ocupar o centro de suas vidas.

Essa mudança de perspectiva dá ao melodrama sua principal força. Interpretados por Britney Wheeler e Ethan Embry, a jovem e o pai revelam os conflitos de quem ama, mas nem sempre sabe lidar com as próprias expectativas. Ele quer vê-la vencer, mas precisa entender o quanto sua identidade está ligada às conquistas da filha. Ela, por sua vez, se vê diante de um futuro que nunca imaginou para si. As boas atuações tornam essa dinâmica convincente, sem reduzir os personagens a figuras simplistas ou recorrer a emoções fabricadas.

A proximidade com os personagens também orienta as escolhas de Glynn, que evita transformar a ambientação de época em algo mais importante do que os conflitos que atravessam aquela família. A direção aposta na intimidade e encontra bons momentos mesmo quando a narrativa recorre a situações conhecidas dos filmes de amadurecimento. Há passagens previsíveis, mas elas não comprometem o conjunto. Afinal, acompanhar as consequências de uma perda pode ser tão significativo quanto descobrir algo inesperado sobre ela.

É nessa atenção às consequências que A Ginasta encontra sua reflexão mais interessante. Sem reinventar o melodrama, o filme trata com honestidade a dificuldade de abandonar um projeto de vida e reconhecer que existem outros caminhos possíveis. Enquanto a protagonista precisa construir uma identidade para além do esporte, o pai enfrenta o desafio de separar o amor pela filha das próprias ambições. O amadurecimento dos dois passa pela aceitação de que os planos podem mudar e de que a vida continua mesmo quando não segue o rumo esperado. Charlotte Glynn encontra, assim, na simplicidade uma forma sincera de falar sobre afeto, frustração e recomeços.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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