Como Fotografar um Fantasma e o silêncio que engole o cinema de Charlie Kaufman

Mais do que uma reflexão sobre sonhos, o filme acaba preso em seu próprio pesadelo cinematográfico
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O trabalho foi exibido na primeira semana da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo / Foto: Divulgação

Charlie Kaufman sempre demonstrou interesse por aquilo que existe entre a realidade e a imaginação, entre a memória e o esquecimento, entre o que pode ser dito e aquilo que permanece impossível de traduzir. Em Como Fotografar um Fantasma, seu novo curta-metragem apresentado na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, essas obsessões reaparecem em uma narrativa sobre fantasmas, imagens, guerras e lembranças. A premissa carrega elementos recorrentes de seu cinema, mas o resultado fica distante da força que tornou o diretor um dos autores mais singulares do cinema contemporâneo.

A história acompanha dois fantasmas que tentam estabelecer uma conexão com um mundo que já não consegue enxergá-los: uma fotógrafa, interpretada por Jessie Buckley, e um tradutor, vivido pelo libanês Josef Akiki. A escolha dos personagens não parece acidental. Enquanto ela registra imagens, ele trabalha com palavras, e ambos se dedicam a transformar em linguagem aquilo que escapa à percepção. O curta encontra sua ideia mais interessante justamente nessa tentativa de tornar visível o invisível.

A partir desse princípio, Kaufman constrói uma colagem de arquivos, imagens de guerras, memórias fragmentadas e momentos oníricos. O filme se aproxima menos de uma narrativa tradicional e mais de um fluxo de pensamentos, como se acompanhasse uma consciência tentando organizar lembranças que surgem de maneira desordenada. Em alguns momentos, essa escolha funciona muito bem. As imagens sombrias e os devaneios criam uma atmosfera de melancolia e estranhamento que remete aos melhores momentos da filmografia do diretor.

O problema aparece quando a fragmentação deixa de produzir mistério e passa a produzir apenas dispersão. Kaufman acumula imagens e ideias sem estabelecer entre elas uma progressão capaz de conduzir o espectador. A montagem parece confiar que a associação entre os fragmentos será suficiente para produzir significado, mas nem sempre há elementos capazes de sustentar essa conexão. O que poderia funcionar como uma experiência sensorial acaba se aproximando, em diversos momentos, de uma sucessão de imagens à procura de um sentido.

Essa fragilidade se torna ainda mais evidente porque o filme possui uma ideia central bastante potente. A tentativa dos personagens de traduzir aquilo que não pode ser compreendido dialoga diretamente com o próprio processo criativo de Kaufman. O diretor parece interessado em registrar o instante em que uma sensação ainda sem forma começa a se transformar em imagem, palavra ou memória. É uma investigação sobre a própria criação artística, mas o curta não consegue desenvolver essa reflexão com a mesma precisão que apresenta em sua concepção.

É uma pena porque Kaufman já demonstrou, em trabalhos como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Anomalisa, uma capacidade rara de transformar conceitos abstratos em experiências emocionais concretas. Mesmo quando seus filmes mergulham no absurdo, há personagens e conflitos capazes de estabelecer uma ligação imediata com o espectador. Em Como Fotografar um Fantasma, essa dimensão humana fica mais distante, soterrada por uma estrutura que privilegia o fragmento em detrimento da emoção.

A passagem de Kaufman pela Mostra tornou esse contraste ainda mais curioso. O diretor encantou o público com seu humor autodepreciativo e com a ironia existencial que também atravessa sua obra. Durante o festival, recebeu o Prêmio Leon Cakoff, participou de uma masterclass sobre seu processo criativo e falou sobre sua relação conturbada com Hollywood. Quando apresentou o curta, havia, portanto, não apenas a expectativa diante de um novo trabalho, mas também a oportunidade de reencontrar um cineasta que construiu uma relação tão particular com seus espectadores.

O filme, porém, não corresponde inteiramente a essa expectativa. Quando alguma lógica começa a se formar entre as imagens e os personagens, a narrativa termina abruptamente. A interrupção até poderia funcionar como parte da proposta, reforçando a ideia de uma memória incompleta ou de um pensamento que não chega a uma conclusão. Na prática, porém, prevalece a sensação de que o filme parou antes de encontrar sua própria forma.

Como Fotografar um Fantasma não é desprovido de beleza ou de boas ideias. Pelo contrário: há imagens poderosas, uma atmosfera cuidadosamente construída e uma reflexão interessante sobre memória, criação e a necessidade humana de transformar o invisível em alguma coisa concreta. O que falta é justamente o elemento que costuma fazer essas ideias ganharem vida no cinema de Kaufman: uma estrutura capaz de convertê-las em experiência.

No fim, o curta parece querer fotografar não apenas um fantasma, mas o próprio instante em que uma ideia desaparece antes de ser completamente compreendida. A metáfora é coerente com o universo do diretor, mas o filme acaba capturando mais a indefinição do que a inspiração. Desta vez, Kaufman encontra imagens para falar sobre o vazio, mas não consegue preenchê-lo com a mesma força que marcou seus melhores trabalhos.

Filme visto na cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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