A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra e os lugares que só o cinema alcança

Entre a música, a poesia e a força das imagens, o filme encontra uma maneira surpreendente de transformar um dia comum em uma experiência cinematográfica singular
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Vencedor do prêmio de Melhor Direção da seção Orizzonti do Festival de Veneza, A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra encanta pela originalidade e pela sensibilidade com que transforma pequenas experiências em descobertas visuais e sonora (Foto: Divulgação)

A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra me surpreendeu para o bem e para o mal. Simples demais à primeira vista, o filme acompanha Jo, uma adolescente de 15 anos, selvagem e melancólica, que tem vergonha até de ouvir a música de que realmente gosta. Quando Phaedra, uma colega de turma, apresenta uma canção de beleza etérea, algo se transforma dentro dela. Entre as lembranças de um sonho que começa a desaparecer, um poema recém-escrito e uma rosa cortada como pedido de desculpas à mãe, Jo atravessa um dia em que pequenas experiências parecem alterar tudo.

O que poderia resultar em um drama adolescente convencional encontra, felizmente, caminhos muito mais inesperados. A narrativa abandona explicações fáceis e se permite experimentar, encontrando uma originalidade que surpreende pela delicadeza e pela liberdade com que observa os sentimentos da protagonista. Há algo de misterioso na maneira como o filme transforma acontecimentos aparentemente banais em experiências de grande significado.

Essa descoberta acontece sobretudo por meio das imagens e da música, trabalhadas com uma sensibilidade que dispensa excessos e confia na capacidade do cinema de comunicar aquilo que as palavras nem sempre alcançam. Naturalmente, a beleza visual não funciona como mero ornamento: ela participa da construção de um universo particular, conduzindo o espectador por sensações, memórias e descobertas que parecem existir entre o sonho e a realidade. Vocês não estão preparados pro ato final desse filme, por exemplo. Eu não estava.

Infelizmente, nem todas as escolhas funcionam com a mesma intensidade, e a simplicidade de algumas passagens pode frustrar quem espera um desenvolvimento dramático mais consistente. Ainda assim, há uma personalidade muito própria nessa experiência, capaz de alcançar lugares que poucas formas de expressão conseguem acessar. Vencedor do prêmio de Melhor Direção da seção Orizzonti do Festival de Veneza, o filme encontra sua maior força quando deixa de tentar explicar Jo e simplesmente nos permite sentir o mundo através dela. É sinistro.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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