
A chegada de Feito Pipa à disputa por uma vaga no Oscar acontece em um momento particularmente importante para o cinema brasileiro. Depois de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, duas produções que ampliaram o reconhecimento internacional da nossa cinematografia, caberia ao escolhido seguinte sustentar esse interesse. Allan Deberton tinha, portanto, uma responsabilidade considerável: seu longa já havia conquistado o Urso de Cristal na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim e recebido reconhecimento no Festival de Gramado, mas precisava mostrar que tinha força para ir além das premiações. E tem. Feito Pipa é um filme sensível, cheio de personalidade e que encontra no Ceará uma história capaz de alcançar públicos muito diferentes.
Primeiro longa cearense a representar o Brasil nessa disputa, o filme acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 12 anos criado pela avó Dilma (Teca Pereira) no interior do Estado. Apaixonado por futebol, dança e maquiagem, ele vive a infância sem abrir mão da própria voz, mesmo em uma comunidade marcada por convenções machistas e homofóbicas. Essa liberdade começa a ser ameaçada quando Dilma apresenta sinais de perda de memória. Com medo de ser separado da avó e enviado para morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), com quem mantém uma relação distante, Gugu tenta esconder o que está acontecendo. A situação ganha ainda outra dimensão com o recuo das águas de uma barragem, que revela as ruínas de uma antiga cidade submersa. A paisagem passa a acompanhar os conflitos daquela família, como se algumas lembranças também estivessem esperando o momento de voltar à superfície.
É nessa aproximação entre o cotidiano e o lúdico que Deberton encontra uma das maiores qualidades do filme. Gugu é um menino queer que gosta de futebol, esporte culturalmente associado a códigos de masculinidade, sem enxergar nisso qualquer contradição. A mesma atenção às nuances aparece em Batista, que reproduz pequenas violências, mas está longe de ser um pai simplesmente vilanesco. Existe amor naquele homem, embora a masculinidade na qual foi criado o impeça de demonstrá-lo. Essa contradição torna a relação especialmente dolorosa, pois o afastamento entre os dois não significa ausência de afeto, mas revela também as dificuldades individuais de cada um.

Essa atenção aos sentimentos dos personagens se estende à realização audiovisual. A fotografia valoriza a paisagem cearense e faz das ruínas e da barragem elementos que participam da narrativa, em vez de servirem apenas como cenário. Essa relação com o ambiente também ganha força no design de som, que merece destaque pelo cuidado e pela construção da atmosfera, revelando uma preocupação recorrente no trabalho de Deberton. A montagem, por outro lado, apresenta algumas irregularidades de ritmo e poderia ser mais precisa em determinados momentos. Ainda assim, o elenco mantém a narrativa envolvente, com atuações excelentes. Yuri Gomes imprime espontaneidade a Gugu, Teca Pereira emociona sem transformar a fragilidade de Dilma em um recurso fácil de comoção, e Lázaro Ramos encontra as contradições de um pai que ama o filho, mas ainda não sabe como chegar até ele.
Embora eventualmente pese a mão no sentimentalismo no ato final, Feito Pipa tem maturidade suficiente para não depender apenas da emoção que provoca. Deberton olha para seus personagens com generosidade e encontra, nas relações familiares, uma maneira de falar sobre liberdade, envelhecimento e as dificuldades de demonstrar amor, tudo isso em inacreditáveis 90 minutos. Naturalmente, a expectativa criada pela indicação ao Oscar poderia facilmente colocar o filme à sombra de seus antecessores, mas o diretor segue outro caminho. Não tenta repetir Salles ou KMF, tampouco precisa disso. Encontra no Ceará, na intimidade de uma família e na liberdade de um menino uma identidade própria. Depois de tantas conquistas recentes, é bom perceber que o cinema brasileiro ainda tem tantas histórias diferentes para contar. E vamos continuar contando.
Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
































