
Com direção do cineasta cearense Allan Deberton, Feito Pipa estreia nos cinemas brasileiros em 5 de novembro e integra a corrida pelo Oscar. Na produção, Lázaro Ramos destaca a importância de uma história que coloca o afeto, o respeito e a conexão humana no centro da narrativa. Em entrevista a Gabriel Amora, o ator também reflete sobre protagonismo negro sem estereótipos, representatividade, masculinidade e a capacidade do cinema de provocar identificação e emoção em diferentes públicos ao redor do mundo.
Gabriel Amora: A importância de Feito Pipa parece ganhar ainda mais força diante do momento que o Brasil atravessa. Por que acredita que essa história chega em uma hora tão necessária?
Lázaro Ramos: A importância desse filme agora tem muito a ver com o momento do Brasil. É uma obra que fala sobre respeito e conexão, dois assuntos fundamentais para nós neste momento da nossa história.

Gabriel Amora: O filme aborda questões importantes, mas sem transformar a narrativa em um discurso explicativo. Como você enxerga essa escolha de sensibilizar o público pela emoção?
Lázaro Ramos: Acho que o filme tem uma coisa muito legal: fala desses temas sem ser didático. Ele sensibiliza, não apenas conscientiza. Vai direto ao coração. Acredito que, às vezes, fica mais fácil discutir questões importantes quando o coração está junto.
Gabriel Amora: Feito Pipa também apresenta um protagonismo negro em uma produção nordestina, com personagens construídos para além dos estereótipos. Qual é a importância dessa representação?
Lázaro Ramos: É um protagonismo negro, mas também um protagonismo sem estereótipos. Uma coisa de que me dei conta outro dia é que esses personagens, facilmente, em outros tempos ou nas mãos de outras pessoas, seriam coadjuvantes visíveis, entrando em cena para fazer uma piadinha e provocar risadas. Aqui, não. Eles têm profundidade, camadas, história, conexão e dilemas. É isso que queremos: nos ver na tela com a qualidade e a grandeza que o filme apresenta.
Gabriel Amora: O afeto é um dos pilares da narrativa. Por que precisamos continuar falando sobre esse sentimento em 2026?
Lázaro Ramos: Porque estamos pouco afetuosos. Está faltando isso em nós. Estamos perdendo a capacidade de nos conectar, de compreender que um afeta o outro e que vivemos em coletividade. Por isso, precisamos respeitar o espaço alheio. O filme fala muito sobre essas questões.
Gabriel Amora: Além das relações afetivas, a história aborda temas como Alzheimer, questões queer e masculinidade. Como essa diversidade de assuntos amplia a potência da narrativa?
Lázaro Ramos: O filme amplia a discussão sobre o afeto ao abordar questões que fazem parte da vida de muitas pessoas, como o Alzheimer, as questões queer e as diferentes dimensões da masculinidade, como você mencionou. E faz isso de uma maneira tão bonita que considero essa uma de suas grandes potências. Acredito que esse também seja um dos motivos pelos quais a obra tem encantado tantas plateias.
Gabriel Amora: O filme já passou por diferentes países e tem provocado reações emocionantes. O que representa acompanhar essa identificação de públicos tão distintos com uma história tão ligada às nossas experiências?
Lázaro Ramos: A qualidade técnica e a narrativa são importantes, mas o tema do filme também é muito forte, suficientemente forte para alcançar o mundo. Ele estreou na Alemanha e teve uma recepção arrebatadora. Depois, passou pelo México e pelos Estados Unidos. Quando chegou ao Brasil, explodiu. A primeira exibição foi em Gramado, com dez minutos de aplausos. Nesta semana, estamos indo de cidade em cidade, e uma das minhas maiores alegrias é ficar escondidinho no final das sessões, ouvindo as pessoas chorarem. Isso é um presente que esse filme deu a todos nós.
































