A Terra do Meu Pai como uma máquina do tempo

Apesar da curta duração, a obra não tem pressa em revelar seus personagens nem transforma seus conflitos em discursos
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Protagonizado pela brilhante Sandra Hüller, o filme chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro (Foto: Mubi)

Há algo de profundamente inquietante em uma história ambientada depois do fim de uma guerra. Quando as batalhas terminam, resta o trabalho menos visível de reconstruir aquilo que foi destruído, e nem tudo pode ser refeito. É desse intervalo, entre o que acabou e aquilo que continua produzindo consequências, que Paweł Pawlikowski extrai a força de A Terra do Meu Pai.

O filme se passa em 1949 e acompanha Thomas Mann e sua filha Erika durante uma viagem por uma Alemanha ainda dividida entre a influência americana e o domínio soviético. Frankfurt e Weimar aparecem como cidades separadas não apenas por fronteiras políticas, mas por diferentes projetos de futuro. O deslocamento dos personagens, portanto, atravessa um país que tenta reorganizar a própria existência enquanto convive com aquilo que deixou para trás.

Essa ideia de reconstrução encontra eco na própria relação entre pai e filha. Thomas e Erika carregam uma proximidade atravessada por ressentimento e silêncios que parecem maiores do que qualquer conversa. O que poderia ser apenas um drama familiar ganha outra dimensão porque Pawlikowski sugere que determinadas feridas históricas não permanecem restritas à esfera pública: elas entram nas casas, contaminam os afetos e passam de uma geração para outra.

É por isso que a forma do filme se torna tão importante. O preto e branco e a composição quadrada das imagens encapsulam os dois em espaços que parecem pequenos demais para tudo aquilo que carregam. Naturalmente, a fotografia não procura embelezar as ruínas, mas prolongar sua presença. Cada paisagem devastada parece conversar com aquilo que permanece quebrado entre os protagonistas.

Essa contenção também define a maneira como Pawlikowski conduz a narrativa. A Terra do Meu Pai não tem pressa para explicar seus personagens, tampouco transforma seus conflitos em discursos. O diretor prefere os gestos interrompidos, os olhares que não encontram resposta e aquilo que permanece suspenso depois de uma conversa ou de uma troca de olhares. O silêncio, aqui, não é ausência: é memória.

No fim, o que torna A Terra do Meu Pai tão doloroso é justamente a percepção de que algumas coisas podem ser reconstruídas sem jamais voltarem a ser como antes. Uma Alemanha tenta se redimir, uma família tenta se aproximar, e Pawlikowski encontra nesse paralelo uma maneira elegante de falar sobre culpa, perda e memória. É um filme que entende que o fim de uma tragédia não significa necessariamente o fim de suas consequências.

Dito isso, A Terra do Meu Pai merece ser visto na melhor tela possível, para que sua imagem, seus silêncios e sua atmosfera alcancem toda a dimensão concebida por Pawlikowski. Não vacilem.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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