A estranheza como disfarce para o vazio

Em Violência de Ninguém, Denis Côté parte de pactos de morte e encontros improváveis para construir um universo de mistério que, aos poucos, revela sua falta de substância
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O filme foi o vencedor do Prêmio do Júri Jovem no Festival de Locarno (Foto: Divulgação)

Violência de Ninguém, de Denis Côté, é uma grande bobagem. O filme acompanha Mira, uma mulher solitária e de poucas palavras que, durante suas viagens, encontra pessoas desesperadas com as quais parece ter selado estranhos pactos de morte. Sem destino certo, ela cruza o caminho de Madeleine e Ludo, duas figuras hedonistas que vivem no coração da floresta, e conhece um jovem que a leva a questionar o próprio estilo de vida errante e seus acordos sombrios. A premissa poderia render um filme perturbador sobre a solidão, a finitude e as relações que se estabelecem diante da tragédia. Na primeira metade, essa possibilidade chega a despertar algum interesse, especialmente quando acompanhamos os encontros da protagonista com pessoas que parecem procurar uma última saída para o próprio sofrimento. São momentos em que a narrativa encontra alguma humanidade, ainda que não consiga avançar muito além da apresentação dessas situações.

O interesse também está na contradição que atravessa a personagem, alguém que parece ajudar os outros a desaparecer enquanto tenta preservar algum vínculo com o mundo. Entre deslocamentos e encontros, Mira oferece ao filme uma perspectiva que poderia revelar muito sobre a dificuldade de se relacionar e encontrar sentido na própria existência. Côté, entretanto, parece mais interessado em revestir essa ideia de uma estética particular do que em investigar suas possibilidades. A direção hiperestilizada impõe uma distância que nem sempre favorece as cenas e, embora a curiosidade pela protagonista ainda sustente a primeira metade, essa escolha começa a cobrar seu preço à medida que a história avança.

Quando o roteiro tenta explicar o universo em que tudo acontece, a fragilidade do projeto se torna incontornável. Côté quer preservar o mistério, mas também apresenta informações que deveriam dar consistência àquele mundo, sem conseguir fazer com que uma coisa contribua para a outra. As explicações não produzem descobertas, enquanto a ambiguidade, antes capaz de alimentar a curiosidade, passa a encobrir a falta de desenvolvimento. Com isso, o que poderia ser uma narrativa sobre escolhas extremas e encontros capazes de transformar uma existência perde força justamente quando deveria aprofundar os conflitos que apresentou. A sensação é de que o filme não sabe o que fazer com as próprias ideias.

Essa falta de direção também contamina a realização. A fotografia insiste em uma paisagem cinzenta e pouco convidativa, enquanto a montagem operística exagera a solenidade das situações sem acrescentar intensidade ao que está sendo contado. Os personagens, por sua vez, atravessam a tela sem deixar marcas, como se nem mesmo o filme encontrasse razões para se aproximar deles. Falta personalidade, mas também disposição para abandonar a pose e descobrir alguma vida nessa história. Havia ali um material potencialmente incômodo sobre pessoas que fazem pactos de morte e uma mulher que começa a rever suas escolhas depois de um encontro inesperado. Côté, contudo, transforma essa possibilidade em um exercício de estilo sem desenvolvimento, tesão ou aventura.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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