
Chicas Tristes, de Fernanda Tovar, por muito pouco, não é um filme perfeito. Bem montado, conduzido por diálogos maravilhosamente escritos e sustentado por uma brincadeira visual cheia de vida, cores e imaginação, o longa constrói um universo em que tudo parece estar bem, embora saibamos que não está. Por trás dessa aparência luminosa, uma das garotas protagonistas caminha, sem o acolhimento e a ajuda de que precisa, em direção a um sofrimento que se acumula em traumas e feridas difíceis de enfrentar. É nesse contraste entre a leveza das imagens e a gravidade do que acontece com as personagens que Tovar encontra a força de sua narrativa, aproximando o espectador de uma experiência que exige cuidado para ser contada.
Em seu primeiro longa-metragem, a diretora reúne assuntos que, isoladamente, já ofereceriam material suficiente para um filme inteiro: amadurecimento, iniciação sexual e estupro. A dificuldade de abordar qualquer um deles não impede a cineasta de atravessar os três com paciência e sensibilidade, sem transformar a experiência das personagens em uma sucessão de acontecimentos traumáticos. A violência não precisa ser mostrada explicitamente para que sua presença seja sentida. O trabalho se concentra no que vem depois, nas marcas que permanecem e na dificuldade de reconhecer o próprio sofrimento, como se olhar para o espelho e admitir o que aconteceu fosse uma tarefa quase impossível. Ao acompanhar os efeitos dessa experiência nos gestos cotidianos, nas relações e na maneira como as meninas passam a enxergar a si mesmas, o roteiro encontra uma forma delicada de tratar um assunto tão doloroso sem diminuir sua gravidade.
Essa atenção ao que permanece escondido também orienta a direção de Tovar, que demonstra um domínio impressionante da composição visual. Os enquadramentos são poderosos, mas nunca parecem existir apenas para exibir uma assinatura estética. A mise-en-scène organiza os corpos, os espaços e as distâncias entre as personagens de modo que a própria geografia ao redor delas participa da narrativa. Os ambientes não funcionam como simples cenários, mas ajudam a traduzir sentimentos que nem sempre encontram espaço nos diálogos. A montagem acompanha esse movimento com precisão, enquanto a seleção musical, atravessada por diferentes canções brasileiras, acrescenta novas camadas à experiência. Em um dos momentos mais felizes, Anunciação, de Alceu Valença, surge como uma escolha de enorme força, capaz de ampliar a energia da cena sem interromper a delicadeza que sustenta o filme.

Toda essa construção encontra nas protagonistas sua expressão mais completa. Darana Álvarez e Rocío Guzmán entregam interpretações brilhantes, com uma espontaneidade que faz esquecer qualquer esforço de construção e permite acompanhar de perto as transformações de suas personagens. São meninas impressionantes, capazes de transmitir afeto, desconforto, descoberta e dor sem recorrer a gestos excessivos ou buscar a comoção fácil. A relação entre elas dá corpo às questões levantadas pelo roteiro e impede que o filme se torne apenas um discurso sobre temas difíceis. A ressalva fica para o terceiro ato, que acelera acontecimentos e conflitos que mereciam mais tempo para amadurecer, encerrando a trajetória das personagens sem a mesma delicadeza com que o filme construiu seus caminhos. Essa pressa deixa algumas emoções pelo caminho e impede que a experiência alcance sua potência máxima. Ainda assim, Chicas Tristes tem vida, personalidade e um olhar muito sensível para as feridas que podem acompanhar alguém durante o processo de crescer. Fernanda Tovar realiza uma estreia de enorme beleza e maturidade. Fica aqui os meus parabéns! Que talento.
Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
































