Mulher Desconhecida e a beleza de uma tragédia que nunca ganha vida

Com uma premissa poderosa e imagens de beleza rara, o filme de May el-Toukhy acaba revelando um drama surpreendentemente vazio de tensão, personalidade e desenvolvimento
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O filme venceu o Leão de Ouro e a Coppa Volpi de Melhor Atriz, concedida a Mathilde Arcel, no Festival de Veneza (Foto: Divulgação)

Pela sinopse e pelos prêmios que acumulou, Mulher Desconhecida, de May el-Toukhy, prometia muito mais do que entrega. Vencedor do Leão de Ouro e da Coppa Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza, o filme parte de uma situação carregada de ambiguidades: uma mulher que, depois de se relacionar com um soldado alemão durante a Segunda Guerra Mundial, tenta esconder esse passado para garantir o conforto de uma nova vida ao lado de um homem rico. É um ponto de partida poderoso, capaz de levantar questões sobre culpa, oportunismo, sobrevivência e a hipocrisia de uma sociedade empenhada em reconstruir suas aparências. Pena que toda essa força fique quase exclusivamente no argumento.

Obscuro até a alma, o longa tem uma beleza plástica que chama a atenção. Os cenários, os figurinos e a composição das imagens constroem um universo rígido, sufocante, no qual cada detalhe parece carregar o peso de uma época ainda assombrada pela guerra. Existe cuidado na maneira como May el-Toukhy organiza esse mundo, mas a sofisticação visual não encontra uma narrativa à altura. Marie vive cercada por segredos, ameaças e lembranças que poderiam alimentar um drama psicológico intenso; no entanto, a personagem parece aprisionada em uma história que nunca se aprofunda de verdade em suas contradições.

O que deveria provocar tensão acaba produzindo distância. O passado da protagonista é apresentado como uma ferida aberta, mas o roteiro pouco faz para investigar suas consequências ou transformar esse conflito em movimento dramático. As relações não ganham densidade, os acontecimentos não acumulam força e a tentativa de Marie de preservar seu novo status raramente desperta curiosidade sobre os limites que estaria disposta a ultrapassar. Há sofrimento por todos os lados, mas sofrimento, por si só, não constitui drama. Falta ao filme a capacidade de fazer esse material explodir, de colocar suas personagens em situações que revelem algo além daquilo que a premissa já anuncia.

No fim, Mulher Desconhecida é um filme de aparência impressionante e interior esvaziado. A beleza das imagens, que inicialmente desperta interesse, passa a funcionar como uma espécie de compensação para a falta de tensão, personalidade e desenvolvimento. É frustrante encontrar uma história tão fértil tratada com tamanha falta de vigor, sobretudo quando havia espaço para um retrato incômodo sobre as marcas da guerra, a conveniência moral e o preço de uma vida construída sobre o silêncio. Tudo parece grave, tudo parece importante, mas quase nada ganha vida. O filme termina deixando a impressão de que sua maior tragédia é não conseguir fazer justiça à história que tinha nas mãos.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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