
É difícil não gostar de Boots Riley. Dono de um carisma raro e de uma imaginação que parece não conhecer limites, o cineasta tem uma maneira muito própria de transformar suas inquietações políticas em experiências cinematográficas irreverentes, provocadoras e, acima de tudo, divertidas. Em I Love Boosters, seu novo longa, ele acompanha um grupo de jovens mulheres que transforma o furto de lojas em uma espécie de ato de insubordinação. A premissa já anuncia a maluquice que vem pela frente, mas o resultado consegue ser ainda mais surpreendente.
Nas mãos de outro cineasta, a proposta poderia facilmente se perder em uma sucessão de piadas fáceis ou provocações que envelhecem antes mesmo de terminar. Riley, entretanto, tem uma compreensão muito particular do absurdo e sabe que, para levar uma fantasia às últimas consequências, é preciso acreditar inteiramente nela.
Naturalmente, o que mais encanta é a liberdade com que o diretor constrói esse universo. Tudo parece obedecer a uma lógica própria, alimentada por uma imaginação que não reconhece limites e por um humor que encontra graça até nas situações mais improváveis. O filme não demonstra qualquer interesse em parecer comportado, coerente ou previsível. Sua personalidade está precisamente na disposição de experimentar, exagerar e brincar com as próprias convenções, sem perder de vista aquilo que deseja questionar.

Existe também uma qualidade admirável na maneira como Riley combina irreverência e posicionamento político. Suas provocações não aparecem como interrupções de uma narrativa interessada apenas em divertir, mas como parte orgânica de um espetáculo que transforma a rebeldia em linguagem. Ainda assim, I Love Boosters está longe de ser um filme agressivo. Por trás da frontalidade, das cores e das situações insanas, existe uma doçura inesperada, que torna a experiência ainda mais simpática e, sobretudo, muito engraçada.
Riley tem carisma, personalidade e uma disposição criativa que faz falta em um cinema tantas vezes preocupado em encontrar fórmulas seguras. I Love Boosters pode até brincar com o absurdo, mas nunca trata a própria invenção como uma brincadeira menor. É um filme de espírito livre, generoso e deliciosamente desobediente. Um presente de Boots Riley, que mais uma vez faz da imaginação uma forma de resistência.
Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
































