
Morte Não Tem Dono, de Jorge Thielen Armand, é um filme de horror que encontra na disputa pela propriedade da terra uma ferida histórica muito maior do que seu conflito imediato. Na trama, Caro retorna à Venezuela para vender a antiga fazenda de cacau herdada do pai, mas encontra a mansão familiar ocupada por antigos funcionários, que se recusam a abandonar o lugar onde construíram suas vidas. Munida de documentos que legitimam juridicamente sua reivindicação, ela decide fazer justiça com as próprias mãos. Consequentemente, o que começa como uma disputa por herança logo revela as marcas de uma violência que atravessa gerações.
Existe uma dimensão política particularmente interessante nessa oposição entre quem possui um documento e quem tem suas raízes fincadas naquela terra. O retorno de Caro à propriedade, depois de uma vida distante, transforma a própria noção de pertencimento em motivo de confronto. A narrativa toca em questões neocoloniais, desigualdade e luta de classes sem precisar abandonar a atmosfera de ameaça que sustenta o suspense. Nesse sentido, o longa dialoga com uma tradição recente do cinema latino-americano interessada em expor a violência escondida nas relações de propriedade, lembrando, em alguns aspectos, o brasileiro Propriedade.
A força dessa abordagem também está na maneira como Jorge Thielen Armand utiliza o espaço. A antiga propriedade de cacau, a mansão e seus arredores são filmados com um cuidado que transforma a paisagem em parte fundamental do conflito. Há uma sensação constante de desconforto, reforçada por uma montagem opressora, que comprime o tempo e faz a tensão crescer mesmo quando a violência ainda não se manifesta diretamente. Quando ela finalmente explode, algumas sequências alcançam uma brutalidade bastante perturbadora. Asia Argento acompanha essa escalada com uma interpretação de grande presença, construindo uma protagonista cuja determinação vai adquirindo contornos cada vez mais assustadores.

O filme, entretanto, não consegue escapar completamente das limitações de uma fórmula que o cinema latino-americano já explorou em diferentes ocasiões. A violência colonial, a disputa pela terra e o horror como expressão das desigualdades sociais são elementos poderosos, mas a obra não encontra caminhos suficientemente originais para articulá-los. Isso não diminui o impacto de suas melhores passagens, tampouco a qualidade de uma encenação que sabe transformar o ambiente em ameaça.
Por conseguinte, Morte Não Tem Dono pode até não reinventar esse território cinematográfico, mas encontra nele imagens fortes e uma inquietação política que permanece mesmo depois de seus momentos mais violentos. Em resumo, é um filme do caralho.
Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
































