Sul de Teerã é o que Jafar Panahi leva consigo

Na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o trabalho foi exibido antes de Tigre de Papel, de James Gray
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O curta, que acompanha Jafar Panahi em uma jornada entre as memórias do Irã e sua paixão pelo cinema, tem direção de Kleber Mendonça Filho (Foto: Divulgação)

Sul de Teerã é um presente de Natal daqueles que a gente gostaria de receber, embora talvez não soubesse exatamente como pedir. Visto na abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o curta de Kleber Mendonça Filho encontra na amizade com Jafar Panahi a matéria de um encontro que, aos poucos, deixa de ser apenas uma conversa entre cineastas para se tornar uma reflexão sobre memória, exílio e pertencimento. Filmado em Nova York, em 2025, o trabalho acompanha o realizador iraniano enquanto ele revisita a própria trajetória e fala sobre a perseguição em seu país natal. A distância geográfica, no entanto, está longe de significar um afastamento definitivo. Há uma parte do Irã que permanece em Panahi, indissociável de sua história, de sua visão de mundo e do cinema que continua a fazer.

É a partir dessa permanência que o filme encontra sua delicadeza. Caminhando pelas ruas de uma cidade estrangeira, Panahi fala de um país do qual precisou se afastar, mas ao qual continua ligado por tudo aquilo que o constitui. Kleber compreende que não há necessidade de organizar essa experiência em torno de uma tese ou de conduzir o amigo a alguma conclusão. Sua câmera acompanha, escuta e concede ao silêncio o mesmo espaço reservado às palavras. O que poderia se resumir a um depoimento sobre a repressão ganha, assim, uma dimensão mais íntima: a de um artista que, mesmo submetido à censura e à perseguição, nunca deixou de encontrar no cinema uma maneira de exercer a liberdade que lhe tentaram negar. Mais do que registrar a violência sofrida por Panahi, o curta se interessa pelo que ela não foi capaz de destruir.

Essa resistência, por sua vez, aproxima as trajetórias dos dois realizadores e ilumina o diálogo entre suas filmografias. Foi Apenas um Acidente, de Panahi, e O Agente Secreto, de Kleber, partem de universos distintos, mas encontram na experiência individual os vestígios de uma violência política que atravessa vidas, memórias e gerações. Indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, os dois cineastas chegam a este encontro carregando obras que, cada uma à sua maneira, interrogam as relações entre poder, história e liberdade. Em Sul de Teerã, essa afinidade não precisa ser explicada nem reivindicada. Ela se manifesta na intimidade entre os amigos, na confiança que sustenta a conversa e no reconhecimento mútuo de quem compreende que filmar também pode ser uma forma de enfrentar o apagamento. A amizade deixa de ser apenas o ponto de partida do curta para se tornar a própria linguagem desse reconhecimento.

É por isso que Sul de Teerã dispensa a solenidade mesmo quando se aproxima de experiências tão dolorosas. Kleber não reduz Panahi à condição de vítima, tampouco transforma sua trajetória em uma ilustração edificante sobre a resistência artística. Interessa-lhe a pessoa por trás do cineasta perseguido, alguém que continua a recordar, pensar e criar, sem que a violência sofrida se converta na única medida de sua existência. Há uma generosidade particular nesse gesto, que encontra na simplicidade do encontro uma maneira de preservar a complexidade do outro. Ao fim, permanece a impressão de que o exílio pode afastar um homem de sua terra, mas não necessariamente dos vínculos que o mantêm ligado a ela. Panahi deixou o Irã, mas o Irã não deixou Panahi. Entre a distância que os separa e a memória que os mantém unidos, o cinema surge não como resposta capaz de reparar essa ruptura, mas como o lugar em que ela pode continuar a ser pensada, compartilhada e, por alguns instantes, habitada.

Filme visto durante a cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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