PTA troca o épico pela intimidade em filme-concerto de Cameron Winter

Depois de conquistar Hollywood com Uma Batalha Após a Outra, Paul Thomas Anderson surpreende ao dirigir um show
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Com planos longos, montagem ágil, closes expressivos e uma série de escolhas visuais cuidadosas, o diretor transforma uma apresentação no Carnegie Hall em uma experiência cinematográfica que carrega marcas muito particulares de sua filmografia (Foto: Divulgação)

É difícil imaginar que o primeiro trabalho de Paul Thomas Anderson depois de conquistar uma leva de Oscars com Uma Batalha Após a Outra seria um filme-concerto de Cameron Winter. Provavelmente, ninguém teria apostado nessa possibilidade. A surpresa fica ainda maior quando descobrimos que o diretor escolheu registrar uma apresentação com ingressos esgotados no Carnegie Hall, em Nova York, deslocando sua atenção para um espetáculo musical que encontra na intimidade seu principal caminho de expressão.

O resultado é um registro elegante, construído com um cuidado evidente com a imagem, a iluminação e a montagem. Anderson não se limita a documentar o que acontece no palco. A câmera procura os pequenos movimentos, acompanha as expressões do cantor e transforma a apresentação em uma experiência cinematográfica que preserva a dimensão do acontecimento sem perder de vista a proximidade com o artista. Há também algumas brincadeiras visuais que quebram a formalidade do registro e acrescentam personalidade à composição.

Nesse exercício, é possível reconhecer características muito particulares do cinema de Anderson. Os planos longos convivem com cortes rápidos, a duração de determinados enquadramentos contrasta com a agilidade de outras sequências e os closes no rosto de Winter estabelecem uma relação quase confessional com quem assiste. A montagem acompanha as variações do espetáculo sem sufocar sua espontaneidade, enquanto a fotografia encontra diferentes maneiras de explorar a presença do cantor. Tudo parece pensado para fazer a câmera participar da apresentação, não apenas observá-la.

Existe, afinal, uma coerência nessa escolha aparentemente inesperada. Mesmo trabalhando em escalas narrativas grandiosas, Anderson sempre demonstrou interesse por personagens, gestos e relações humanas que carregam alguma fragilidade. Seu cinema costuma encontrar o extraordinário naquilo que é profundamente íntimo. Ao filmar Cameron Winter no Carnegie Hall, o diretor muda de território, mas não abandona esse princípio. É um encontro musical registrado com beleza, personalidade e sensibilidade, que confirma como seu olhar permanece reconhecível mesmo quando o assunto é completamente diferente.

Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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