
É meio inacreditável pensar na existência de Iron Boy e, principalmente, na beleza que o filme encontra em uma história tão particular. Ambientada no interior da França, a animação acompanha Christophe, um menino de dez anos que vive sob a presença rígida e distante do pai, em uma rotina marcada pelo trabalho na fazenda e pelas expectativas de uma família que parece não saber muito bem como lidar com suas diferenças. Quando o garoto começa a perder o equilíbrio e desabar sem qualquer aviso, um médico encontra uma solução pouco convencional: um colete de ferro para mantê-lo de pé. O que poderia se transformar em uma narrativa limitada pela condição física do protagonista ganha outros caminhos.
A delicadeza do roteiro está justamente em não permitir que a deficiência de Christophe determine todos os sentidos de sua existência. O colete modifica sua relação com o mundo, impõe novas limitações e o obriga a descobrir outras possibilidades, mas o menino continua sendo uma criança com curiosidades, desejos, medos e uma enorme vontade de experimentar a vida. A aproximação com a música e o encontro com uma nova amizade abrem espaço para pequenas aventuras, descobertas e travessuras que dão ao filme um encantador espírito de amadurecimento.
Essa sensibilidade encontra correspondência em uma animação sublime, de imagens belíssimas e composições visuais que parecem guardar uma poesia própria. Há um cuidado especial na construção dos ambientes, nas paisagens rurais e nos movimentos dos personagens, criando um universo que acolhe a história sem recorrer a excessos dramáticos. O trabalho de dublagem também merece destaque, pela expressividade e pela naturalidade com que transmite as emoções dos personagens. Tudo contribui para que a experiência seja envolvente, sem perder a simplicidade que faz parte de seu encanto.

Iron Boy é um daqueles filmes que nos lembram como a animação pode encontrar beleza em histórias aparentemente pequenas. Em vez de transformar Christophe em um símbolo ou fazer de sua condição uma lição para o espectador, o longa permite que ele seja simplesmente um menino tentando descobrir seu lugar no mundo. Existe muita ternura nessa escolha, mas também inteligência na maneira como o filme compreende a infância, a amizade e a necessidade de encontrar novos caminhos quando a vida não acontece como esperávamos. Uma obra delicada, visualmente deslumbrante e muito mais generosa do que sua premissa poderia sugerir.
Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

































