
Amor Possível, de Lee Chang-dong, está entre os grandes filmes de 2026, não apenas pela duração, mas pela sensibilidade com que observa as contradições humanas. Original Netflix, o longa teve poucas sessões nos cinemas ao redor do mundo, mas ganhou espaço expressivo nas salas dos Estados Unidos, como parte de uma estratégia voltada à disputa pelo Oscar do próximo ano. Com quase três horas de projeção, a obra acompanha um trabalhador demitido e sua esposa, cujas vidas se cruzam com as de uma documentarista e seu companheiro, trazendo à tona desejos reprimidos e tensões que ultrapassam os limites da intimidade.
É por meio desses enfrentamentos que Lee amplia o drama individual e constrói um retrato de classe atento às relações de trabalho, à desigualdade e à luta por dignidade. Naturalmente, o interesse pelas condições materiais da existência aproxima seu cinema de uma perspectiva sindical, na qual a experiência dos personagens não pode ser dissociada das estruturas sociais que a condicionam. Em um cenário de tensão democrática, tanto na Coreia do Sul, país de origem do diretor, quanto em outras partes do mundo, essa abordagem ganha força sem depender de discursos inflamados. É nesse retrato das relações de poder que surge uma das questões centrais do filme: o que acontece quando o sofrimento alheio se transforma em objeto de interesse?
Ao investigar esse tema, o cineasta evita julgamentos fáceis. Amor Possível não transforma automaticamente em vilão quem registra ou se beneficia da dor, mas tampouco ignora o risco de converter a experiência humana em mercadoria. Entre o direito de contar uma história e a possibilidade de instrumentalizar quem a vive, o roteiro sustenta uma tensão moral que atravessa as relações entre os casais. As atuações dão corpo a esses dilemas, enquanto sequências como a da praia e a do depoimento diante das câmeras revelam como episódios particulares podem expor questões de alcance coletivo.

A força dramática desses momentos contrasta, porém, com uma encenação pouco inventiva. Embora desenvolva situações complexas e diálogos precisos, Lee recorre a movimentos de câmera e soluções visuais que nem sempre acrescentam novas camadas ao material dramático. Em determinadas passagens, a palavra concentra quase toda a intensidade, enquanto a construção imagética poderia aprofundar as ambiguidades dos personagens. Ainda assim, as interpretações mantêm o interesse e a narrativa encontra saídas surpreendentes para recuperar o ritmo.
Apesar das limitações da encenação, Amor Possível encontra sua força ao mostrar como a necessidade de compreender uma realidade pode se confundir com o desejo de controlá-la. Ao colocar em confronto quem vive uma situação e quem pretende transformá-la em narrativa, Lee Chang-dong examina as relações de poder que também atravessam o ato de filmar. Logo, a questão que fica vai além do cinema: quem tem o direito de contar a história de outra pessoa e o que acontece quando esse gesto também se torna uma forma de exploração?
Filme visto na cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

































